Arquivo do mês: julho 2011

the custodian . prólogo

 

the custodian . christian martins
prólogo

                O mordomo bem vestido entra pelas portas do fundo, atravessando a cozinha.
– Onde está a Sra. Fakkon? – pergunta à criada que lava umas folhas de alface americano. – O carro que pediu já aguarda-a no hall de entrada.
A mulher olha para o mordomo e responde com os ombros. Sua roupa extremamente limpa e passada alinha-se ao requinte de nobreza que a sociedade exige de seus patrões. Assim como o mordomo, com as vestes pretas e a gravata e luvas brancas; e com andar sofisticado, reflete seus anos de aprendizado de uma academia de etiqueta. Sempre disposto – e ereto de preferência, como cobrava a Sra. Fakkon – organizava as mesas e era encarregado de receber e se comunicar com a patroa, na mais graciosa maneira.
– Ela ainda não desceu. Deve estar terminando de se arrumar lá no quarto.
O mordomo pensa e responde:
– Terei que ir até lá. – A criada arregala os olhos. – O encontro é de tamanha importância e já estamos atrasados. Se o patrão perder essa oportunidade, é capaz que eu perca o emprego; mesmo alegando a demora de sua esposa.
– Faça como achar melhor. – E volta a lavar os tomates.
Então o homem cruza a porta e sobe as escadas.

Antes não tivesse feito isso.
Os meses sem emprego e a procura por outro. Até anos compensariam o que estava prestes a ocorrer. Porque depois da escada tem um corredor. No final, a porta do quarto da Sra. Fakkon aguarda fechada. Espero que não coma meu fígado, pensa ele. Se ainda estiver viva é claro… Três toques na porta branca. Mais três.
– Senhora Fakkon? Senhora Fakkon?
Sua luva branca encontra a maçaneta. Antes hesita, mas decidi continuar – depois de olhar mais uma vez ao relógio. E é com um silêncio brutal que presencia a cena atrás da porta.
Marina Fakkon costumava transmitir exuberância. Com seus graciosos vestidos de seda esvoaçando em vão, mesmo sem uma janela estar aberta. Suas delicadas orelhas serviam como perfeitos encaixes aos seus brincos de ouro e prata, comprados em viagens pela Europa. As da Suíça encantavam ainda mais. E ainda tinham os brilhos dos sapatos e o esplendor de seus lábios bem pintados. Naquela noite ela usava um vermelho fogo importado.
Nunca que o mordomo imaginaria que uma ícone da beleza nacional pudesse, de um dia para o outro, transformar-se numa imagem aterrorizadora e inesquecível. O corpo delicado de sua patroa estava dependurado no teto. Seus cabelos estavam paralisados encostando o chão. Os pés, que uma vez revestidos por esmaltes belgas, estavam amarrados no teto. Ela jazia de cabeça para baixo.
Senhora Marina… O que aconteceu aqui? O mordomo admirava sarcástico. Nem um grito deixa-se emitir.
As veias de sua cabeça saltavam para fora, e derramavam o sangue pelos cortes nas bochechas. As marcas roxas em seus braços, as roupas sujas e rasgadas, a corda com o nó de marinheiro enforcando seus tornozelos. Tudo. Tudo o mordomo percebe e num instinto assassino encosta a porta atrás de si.
Então tira uma chave do bolso do paletó e coloca-a na fechadura. Dá dois giros, retira, e guarda-a novamente no lugar de onde saíra. Faltava apenas a sua parte do plano.

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